Criminosos comandados por Orlando Curicica cobravam taxas da população e de grandes empresas, incluindo o Comperj. Lucro mensal ultrapassava R$ 500 mil. Polícia visa a cumprir 74 mandados de prisão.

Uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público do RJ prendeu, na manhã desta quinta-feira (4), 42 suspeitos de integrar uma milícia que invadiu a cidade de Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio.

Comandado por Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica, o grupo paramilitar exigia o pagamento de taxas da população e de grandes empresas.

Segundo as investigações, os milicianos foram para Itaboraí visando a um faturamento maior por causa do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), cujas obras foram retomadas no ano passado.

Ainda segundo a polícia, uma das táticas seria a cobrança de vans que faziam transporte de funcionários para o polo da Petrobras no município.

A polícia ainda não informou se o Comperj efetuou os pagamentos exigidos pelos milicianos.

Em nota, a Petrobras informou que não identificou qualquer extorsão promovida por grupos criminosos no Comperj. “A companhia, por meio de sua área de segurança corporativa, atua em conjunto com os órgãos de segurança pública e reporta a estes órgãos qualquer tipo de ocorrência de segurança”.

R$ 500 mil de lucro por mês

A força-tarefa afirma que o bando lucrava pelo menos meio milhão todos os meses. Orlando Curicica está no presídio federal de Mossoró (RN). Ele é um dos alvos desta operação.

Curicica também é apontado como um dos suspeitos na morte da vereadora Marielle Franco e do motorista dela, Anderson Gomes (leia mais abaixo).

Braço direito de Curicica, o PM Fábio Nascimento de Souza, o China, foi preso em Rio Bonito. Ele servia à Unidade de Polícia Pacificadora do Borel, na Tijuca, Zona Norte do Rio.

O ex-PM Alexandre Louback Geminiani, o Playboy, um dos 74 alvos, pulou do quarto andar do prédio onde estava, no Centro de Itaboraí. Mesmo com a queda, ele escapou do cerco.

A Operação Salvator é a segunda, em dois dias, das autoridades do RJ contra milicianos. Nesta quarta (3), seis pessoas foram presas, suspeitas de movimentar o dinheiro das atividades criminosas da maior milícia do estado.

Quadrilha usava mulheres

A ação, batizada de Salvator, visa a cumprir 74 mandados de prisão – cinco deles contra policiais militares – e 90 mandados de busca e apreensão.

Chamou a atenção dos investigadores a participação de mulheres no esquema. A elas cabiam tarefas como cobranças de moradores e lojistas. Uma idosa está entre os presos.

“A prática deles é bem brutal. A gente tem testemunhas e vítimas de extorsões não só destas taxas de segurança, mas também eles tomando alguns comércios, tomando residências, torturando moradores”, explicou o delegado Gabriel Poiava.

Leonis Loviz da Silva; Cláudio José Rodrigues Braz, o Polegar; e Altemar de Oliveira Rodrigues, o Zé Trovão ou Mazinho, presos na Operação Salvator — Foto: Reprodução/PCERJ
Leonis Loviz da Silva; Cláudio José Rodrigues Braz, o Polegar; e Altemar de Oliveira Rodrigues, o Zé Trovão ou Mazinho, presos na Operação Salvator — Foto: Reprodução/PCERJ

Tráfico foi expulso há um ano e meio

A milícia atua no município há, pelo menos, um ano e meio. Antes, o tráfico dominava a região.

Após a chegada dos milicianos, traficantes começaram a aparecer mortos, com corpos deixados pelas ruas da cidade, uma forma de intimidar a população. Isso despertou a atenção da polícia e fez com que a quadrilha passasse a ocultar os cadáveres.

Segundo a polícia, a partir de então, a quadrilha comandada por Curirica também se tornou responsável, além de homicídios, pelo desaparecimento de pessoas na cidade.

Com o auxílio de PMs, eles passaram a matar usuários de drogas, autores de pequenos furtos e até mesmo parentes de traficantes de outras comunidades.

“Eles não só atuavam como a gente vislumbra naquela antiga clássica atuação de um grupo de extermínio, com ‘taxa de segurança'”, explica Rômulo Santos, promotor do Gaeco. “Eles cobravam sobre imóveis vendidos na região”, frisou.

O promotor afirma também que imóveis tomados eram até anunciados na internet. “Eles expulsavam moradores, tomavam os imóveis e vendiam até através da OLX”, complementou.

Mapa mostra onde fica Itaboraí e destaca o Comperj — Foto: Infografia: Juliane Monteiro/G1
Mapa mostra onde fica Itaboraí e destaca o Comperj — Foto: Infografia: Juliane Monteiro/G1

Crueldade chamou atenção

De acordo com a polícia, uma das coisas que mais chamaram atenção durante as investigações foi a crueldade com que o grupo executava suas vítimas.

“Uma das coisas que nos chamaram a atenção foram os requintes de crueldade. Alguns foram presos também por tortura, outros porque mutilaram corpos de vítimas”, disse Poiava.

“Um chegou a tirar o coração de uma vítima, a cabeça”, citou o delegado.

Os integrantes da organização ainda são apontados como responsáveis pela maior chacina que já houve no município. Em janeiro deste ano, 10 pessoas foram brutalmente assassinadas.

A ação, da Divisão de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), conta com o apoio da Corregedoria da Polícia Militar.

Ao todo, cerca de 300 policiais civis e 40 PMs estão nas ruas para cumprir os mandados.

Distintivo e armas foram apreendidos na Operação Salvator — Foto: Reprodução/PCERJ
Distintivo e armas foram apreendidos na Operação Salvator — Foto: Reprodução/PCERJ

Investigações

As investigações tiveram início na mesma época em que Orlando Curicica colocou um dos seus homens de confiança e braço direito, Renato Nascimento dos Santos, o Renatinho Problema, para expandir os negócios da quadrilha.

A atuação do bando começou no bairro Visconde de Itaboraí, mas, com a ajuda do policial militar Fábio Nascimento de Souza, o China, em pouco tempo o esquema expandiu para bairros vizinhos.

A organização criminosa, segundo o MP-RJ, tinha funções bem definidas, tais como donos, lideranças, gerência, ‘matadores’, recolhedores, soldados ou olheiros.

Milicianos exibem armas pesadas em Itaboraí — Foto: Reprodução/PCERJ
Milicianos exibem armas pesadas em Itaboraí — Foto: Reprodução/PCERJ

Mensagem pichada em um muro de Itaboraí — Foto: Reprodução/PCERJ
Mensagem pichada em um muro de Itaboraí — Foto: Reprodução/PCERJ

Curicica e Marielle

Um ex-aliado de Orlando Curicica o denunciou como mandante do atentado contra Marielle Franco, em março de 2018.

O policial militar Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, afirmou em depoimento que Curicica e o vereador Marcelo Siciliano tramaram a morte da vereadora – ambos sempre negaram.

Um relatório da Polícia Federal (PF), porém, apontou Ferreinha como responsável por atrapalhar os trabalhos da polícia.

A PF afirma que o policial militar criou uma história com a finalidade de confundir as autoridades – e aproveitou a trama para se vingar.

PONTOS DA DELAÇÃO DE FERREIRINHA

  • Ferreirinha afirmou que Marcello Siciliano (PHS) e Orlando Curicica queriam Marielle morta.
  • A motivação seria o avanço de ações comunitárias da vereadora na Zona Oeste.
  • Conversas sobre o crime teriam começado em junho de 2017.
  • Ex-aliado de Orlando citou, além de Siciliano e o miliciano, outras quatro pessoas.
  • Homem chamado “Thiago Macaco” teria levantado informações sobre Marielle.

Em março, a TV Globo mostrou com exclusividade o depoimento da advogada de Ferreirinha à PF. Camila Nogueira disse que desconfiava da versão apresentada pelo cliente e que se sentiu usada.

A advogada esclareceu que “essa criação de Rodrigo Ferreira e a manipulação com os policiais civis que fez com ela foi mais um dos fatos que levaram a declarante a ter medo de ficar nessa situação”.

No dia 12 de março deste ano, o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz foram presos por suspeita de envolvimento no crime. Para os investigadores, Ronnie teria sido o autor dos disparos e Élcio dirigia o carro usado no dia do crime. Ambos estão em um presídio federal fora do Rio. As investigações se concentram na busca pelo mandante.

No fim de maio, Ferreirinha foi preso em uma operação contra milicianos.

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