Pesquisador contou que até ‘vaquinha’ foi feita para ajudar uma aluna a participar de curso na Fiocruz. Bolsas podem deixar de ser pagas em setembro.

Meio litro de soro usado na pesquisa de produção de antídotos para venenos de cobras e escorpiões, realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), não sai por menos de R$ 2 mil.

Prédio da reitoria da UFMG, em Belo Horizonte — Foto: Pedro Cunha/G1
Prédio da reitoria da UFMG, em Belo Horizonte — Foto: Pedro Cunha

“Com essa possibilidade de não ter pagamento do CNPq em setembro, não vai ter dinheiro nem para material de laboratório. Ele já está acabando”, disse o professor Carlos Delfin Chávez Olortegui, que coordena o estudo.

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou no dia 15 de agosto que suspendeu a assinatura de novos contratos de bolsas de estudo e pesquisa. O Ministério da Ciência e Tecnologia também admitiu que há risco de que as bolsas fiquem sem pagamento no mês que vem.

O professor conquistou o valor máximo do último edital do CNPq. Porém, dos R$ 120 mil prometidos, ele recebeu R$ 4,5 mil. A pesquisa coordenada por ele pretende diminuir o uso de animais na produção de antídotos para venenos de animais peçonhentos.

“A ideia é não usar mais cavalos ou camundongos na produção. Não precisamos matar cobras ou escorpiões. Estamos desenvolvendo os antivenenos no laboratório através da biotecnologia. Com bactérias e em células”, contou Olortegui.

Pesquisa estuda produção de antivenenos sem uso de animais. — Foto: Reprodução EPTV
Pesquisa estuda produção de antivenenos sem uso de animais. — Foto: Reprodução EPTV

Além dele, cerca de 80% dos vinte alunos de pós-graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado dependem da bolsa do CNPq para viver da pesquisa.

“Tem gente que está conosco até sem bolsa. Fizemos até uma vaquinha para que uma aluna conseguisse participar de um encontro de uma semana na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Tiramos dinheiro do próprio bolso”, contou o professor.

Com a possibilidade de não ter pagamento do CNPq em setembro, a pesquisa corre o risco de ficar paralisada.

“O Brasil é uma potência mundial no estudo das toxinas. É uma referência para outros países. Ele corre um sério risco de perder essa liderança”, disse.

O professor também luta para que alguns de seus alunos continuem a pesquisa no exterior. “Estou entrando em contato com colegas para tentar mandar três ou quatro dos estudantes aqui do laboratório. É desesperador”, falou Olortegui.

Parte da pesquisa também é bancada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig). Porém, ela suspendeu parte dos recursos em fevereiro por causa da crise financeira do estado. Só a UFMG perdeu R$ 2,5 milhões destinados a bolsas de iniciação científica e cerca de R$ 13 milhões para projetos liderados por professores.

Nota do CNPq sobre a suspensão de novos contratos de bolsistas — Foto: Divulgação/CNPq
Nota do CNPq sobre a suspensão de novos contratos de bolsistas — Foto: Divulgação/CNPq

Suspensão

Sem resposta do governo federal sobre a garantia de abertura de crédito suplementar para cobrir o déficit do orçamento de 2019, o CNPq anunciou no dia 15 de agosto que suspendeu a assinatura de novos contratos de bolsas de estudo e pesquisa.

A recomposição, segundo informou o órgão, se refere ao crédito suplementar de R$ 330 milhões. Quem abre o crédito é o Ministério da Economia, mas, de acordo com o conselho, até a tarde desta quinta, a pasta não havia dado garantias de que liberaria o reforço orçamentário.

O Ministério da Economia afirmou que o pedido de crédito suplementar para o CNPq, feito em 1º de março e referendado em votação no Congresso Nacional em 11 de junho, ainda “permanece em análise na JEO [a Junta de Execução Orçamentária], sem prazo para decidir sobre o pleito.”

Esse recurso é necessário para cobrir o déficit previsto pelo CNPq desde o ano passado, quando a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2019 foi aprovada, para as bolsas.

No dia 16 de agosto, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes afirmou que há risco de que as bolsas do CNPq fiquem sem pagamento em setembro. Segundo ele, a liberação de recursos está na “mão da Economia e também da Casa Civil”.

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